Cortada das exportações da Venezuela, e agora do México, Cuba está diante de sua maior crise energética em décadas – o que coloca mais uma vez em xeque o regime comunista estabelecido por Fidel Castro em 1959.
Com suas reservas de petróleo e derivados minguando, Havana acaba de lançar diversas medidas desesperadas para economizar combustíveis e energia, e até autoridades já comparam a situação com o quase colapso do país nos anos 1990.
O plano do Presidente Miguel Díaz-Canel – divulgado inicialmente na sexta-feira e a ser detalhado nos próximos dias – inclui redução da semana de trabalho, universidades em modo semipresencial e cortes drásticos no transporte público.
Sem produção relevante de petróleo e combustíveis, Cuba foi por muitos anos abastecida pela Venezuela. Essas exportações foram bloqueadas pelos EUA em dezembro, pouco antes da captura de Nicolás Maduro pelo Governo Trump. O México, que mais recentemente vinha sendo o maior supridor da ilha, também paralisou os envios de petróleo para evitar represálias dos EUA, confirmou hoje a presidente Claudia Sheinbaum.
Na última semana, a companhia de dados Kpler estimou ao Financial Times que Cuba provavelmente tem barris para mais 15 ou 20 dias. Em Havana, a situação já é associada ao colapso econômico que a ilha sofreu com o fim da União Soviética, então a grande patrocinadora do regime castrista.
O ministro de Energia e Minas cubano, Vicente de la O Levy, disse que iniciativas impulsionadas por Fidel Castro no chamado “período especial”, como “o uso de lenha e carvão” em padarias “são muito adequadas para a situação atual” e devem ser retomadas.
Depois de uma reunião extraordinária do Conselho de Ministros na sexta-feira, o Governo anunciou que vai concentrar atividades administrativas entre segunda e quinta-feira para poupar energia.
Também haverá redução de jornadas em algumas áreas, incentivo ao teletrabalho e até dispensa temporária de alguns funcionários.
Na área de transportes, para priorizar o abastecimento de atividades portuárias e aeroportos, serão reduzidos os serviços de trens, ferries e ônibus. Transportes privados estarão sujeitos a um racionamento de combustíveis.
No setor de educação, as universidades passarão a ter o semipresencial “como eixo central”, com autoridades citando a experiência prévia da época da pandemia.
A prioridade será manter aulas presenciais para a primeira infância, mas poderá haver cortes de jornada até para as crianças nas creches.
Mesmo o turismo, vital para o país, foi atingido. O Governo disse que pretende “garantir a sustentabilidade” do setor porque ele gera entrada de moeda forte – mas seu plano de reduzir o consumo de energia já levou ao fechamento de alguns resorts e à transferência de hóspedes para outros nas proximidades, segundo a Bloomberg.
A falta de petróleo também afeta o suprimento de eletricidade, uma vez que a matriz elétrica da ilha é fortemente dependente de termelétricas. Cuba já vinha sofrendo blecautes diários, com um déficit crônico de oferta de eletricidade desde o ano passado, que agora tende a se agravar.
Depois da queda da URSS, Chávez e Maduro ajudaram Cuba a se manter em pé, desafiando inúmeras previsões sobre o fim do regime comunista local.
Hoje, não há um salvador óbvio à vista, disse ao New York Times uma professora de história da Universidade de Princeton, Ada Ferrer, que escreveu um premiado livro sobre Cuba. “Dessa vez parece diferente,” Ferrer disse ao jornal.
Sem a antiga URSS e os companheiros Chávez e Maduro, poderia a Rússia ser a nova tábua de salvação?
Vladimir Putin sinalizou que quer ajudar. Mas, com os russos lutando na Ucrânia e sob sanções do Ocidente, há dúvidas se Moscou vai conseguir.
“Estamos negociando com nossos amigos cubanos para encontrar potenciais soluções para essas questões. Ao menos para dar o apoio que pudermos,” disse hoje o porta-voz do Kremlin.
