Os sinais de stress no crédito privado não param de aparecer


Os pontos de stress no até pouco tempo atrás pujante mercado de crédito privado nos EUA vão ficando mais evidentes a cada dia.

O JP Morgan decidiu hoje restringir empréstimos para fundos de crédito privado, depois de optar por dar baixa contábil em algumas de suas operações de retorno incerto.

A perda ocorreu em linhas de financiamento de empresas de software, de acordo com o Financial Times e a Bloomberg – no mais recente contágio da crise de confiança que atinge os negócios mais vulneráveis ao avanço da inteligência artificial.

As companhias de software estão entre os maiores tomadores de crédito privado – tipicamente em operações feitas por gestoras de private equity. São fundos de investimentos alternativos de menor liquidez e que nem sempre são listados. Os bancões de Wall Street concedem empréstimos a esses fundos, recebendo como colateral as dívidas das empresas financiadas.

Jamie Dimon

Jamie Dimon, o CEO do JP Morgan, disse semana passada que o banco passou a ser mais prudente nos empréstimos cujo colateral sejam ativos de empresas de software.

Segundo o FT, Troy Rohrbaugh, o co-CEO da área comercial e de investimentos do banco, disse a analistas que o JP Morgan estava se tornando mais conservador em comparação com seus pares em relação aos riscos no crédito privado.

“Com o mundo cada vez mais instável, esse resultado já era esperado,” afirmou. “Estou chocado que as pessoas estejam chocadas.”

Chocados – com razão ou não – estão os investidores de varejo que colocaram dinheiro em fundos de crédito privado e não estão conseguindo sacar as aplicações. A maioria desses veículos de investimento em ativos estressados e de menor liquidez impõe restrições ou limites à retirada antecipada – os chamados fund-level gates.

Na semana passada, a BlackRock limitou a 5% do saldo o resgate permitido antes do vencimento previsto em um de seus maiores fundos de crédito, o HPS Corporate Lending Fund, com ativos totais de US$ 26 bilhões.

O fundo foi originado pela HPS Investment Partners, adquirida pela BlackRock no ano passado.

A indústria de fundos de crédito privado, cujos ativos já chegam a US$ 1,8 trilhão, vive um dilema: permitir resgates antecipados e não seguir a estratégia de longo prazo da política de investimentos ou afugentar os investidores de varejo que os gestores há anos vinham buscando atrair para os veículos de investimentos alternativos.

“Não se pode criar liquidez a partir de uma classe de ativos ilíquidos,” John Cocke, vice-diretor de investimentos em crédito da Corbin Capital Partners, disse à Bloomberg. De acordo com o executivo, sem impor limites de resgate seria criada “uma vantagem para os primeiros a resgatar e um dilema do prisioneiro para os investidores restantes.”

Em um vídeo a investidores do HPS, Mike Patterson, um dos fundadores da firma de investimentos, disse que os gates contra resgates antecipados “permitem otimizar o desempenho, porque só precisamos responder a solicitações de liquidez previsíveis,” segundo o relato da Bloomberg.

“Você nunca quer estar na posição de ter que vender ativos ilíquidos com base em demandas de capital de curto prazo,” disse Patterson.

Outra gestora sob pressão é a Cliffwater. A solicitação de resgates de seu principal fundo de crédito privado, com patrimônio de US$ 33 bilhões, chegou a 14%, segundo o Wall Street Journal. A firma limitou a saída, colocando um teto de 7% na recompra de ações.    

Já a Blackstone decidiu aceitar a retirada de até 7,9% dos saldos de um de seus principais fundos, o BCRED, com US$ 82 bi em ativos, um percentual nunca antes autorizado. O limite contratual é de 5%.

Para cobrir a retirada, mais de 25 executivos da própria Blackstone contribuíram coletivamente com cerca de US$ 150 milhões para o fundo. A firma entrou com outros US$ 250 milhões. O total de resgates somou US$ 3,8 bi.

Jon Gray, o presidente da gestora, disse à CNBC que os ativos do fundo são de boa qualidade e defendeu a estratégia de alocação.

“Se pensarmos em qualidade de crédito, os mais de 400 tomadores de empréstimo tiveram um crescimento de EBITDA de 10% no ano passado,” disse Gray.

O fundo vem entregando um retorno histórico anualizado de 9,8%.

O estresse, entretanto, respingou na ação da Blackstone, que já desabou 32% desde o início do ano. No mesmo período, o papel da BlackRock caiu 12%.




Giuliano Guandalini






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