A Eneva está vendendo uma térmica a carvão no Porto de Pecém, no Ceará, enquanto se prepara para construir, na mesma região, usinas a gás com o triplo da capacidade e um terminal de GNL.
A companhia que tem o BTG Pactual como maior acionista anunciou hoje a venda da térmica Pecém II, a carvão, por até R$ 1 bilhão, em um negócio com a Diamante Energia.
A venda acontece dias depois da Eneva recontratar o complexo de Pecém II no leilão de capacidade da semana passada, com entrega a partir de 2031.
Em paralelo, a companhia também assinou com a Diamante um acordo que lhe permitirá instalar um terminal de gás natural liquefeito (GNL) na área, com capacidade para escoar até 14 milhões de metros cúbicos por dia.
A Diamante vai pagar à Eneva R$ 872,3 milhões incluindo dívidas (enterprise value) por Pecém II, com um adicional de até R$ 149 milhões se os contratos de venda de energia da usina forem antecipados.
No leilão de capacidade, a Eneva também assegurou contratos para construir duas térmicas a gás no Ceará – Jandaia I e II – que somarão 1,19 GW e deverão entregar energia por 15 anos a partir de agosto de 2029. (A título de comparação, Pecém II tem 365 MW.)
O terminal de GNL no Pecém anunciado hoje atenderá essas usinas, e ainda terá capacidade adicional para permitir vendas a outros clientes e futuros novos projetos térmicos na região.
Para o analista de utilities da XP, Raul Cavendish, a transação faz sentido estratégico para a Eneva e na prática até diminuirá o custo de capital da companhia.
“O carvão restringe muitos investidores globais de investirem em Eneva e dificulta o acesso a linhas de crédito específicas,” disse Cavendish.
Ele especulou, ainda, que este poderia ser o primeiro passo para a Eneva sair totalmente de seus ativos de carvão, reduzindo ainda mais o custo de capital e a pegada de carbono – a empresa ainda tem a UTE Porto do Itaqui, no Maranhão, com 360 MW.
Ao menos por enquanto, porém, este não é o objetivo da Eneva, uma fonte com conhecimento da estratégia da empresa disse ao Brazil Journal. A empresa “não tem intenção de vender mais. Pecém foi bem específico.”
O valor da venda ficou abaixo do valuation projetado por analistas, mas o negócio “fez parte de uma transação maior com a Diamante que envolveu projetos a gás e o terminal em Pecém,” disse essa fonte. “A transação não pode ser avaliada individualmente. O direito de operar o porto será 100% da Eneva.”
Analistas do Santander tinham no modelo um enterprise value de R$ 1,4 bilhão para Pecém II, embora esta conta não considerasse o terreno para o terminal de GNL. Eles avaliaram o deal como “uma etapa necessária para implantação do novo hub de GNL no Ceará.”
“A transação tem muito mérito estratégico,” disse Cavendish, da XP.
Nos novos projetos a gás do hub Ceará a Eneva terá uma receita fixa de R$ 3,11 bilhões por ano, com margem fixa de 75% a 85%.
Pecém II, vendida agora, terá receita fixa anual de R$ 510,8 milhões nos contratos fechados no leilão.
Já a Diamante, que está adquirindo o ativo, não tem medo do carvão – a empresa comprou antes a usina de Pecém I, em transação com a EDP Brasil em 2025, e o complexo a carvão Jorge Lacerda, da Engie, em 2021.
A Diamante tem como um de seus sócios Pedro Grünauer Kassab, que é sobrinho do presidente do PSD, Gilberto Kassab.
