De Poços de Caldas a Mount Weld, de Washington a Hannover, de Tóquio a Bruxelas, há um movimento global em torno de minerais críticos que não tem paralelo, em recursos naturais, desde a corrida do petróleo dos séculos XIX e XX.
Dezenas de acordos bilaterais. Pentágono virando acionista de mineradora. Bancos de fomento e organismos multilaterais participando da negociação de price floors, offtakes e financiamento público de longo prazo. M&A e IPOs em grandes volumes.
Tudo acontecendo diante dos nossos olhos há anos.
Sou de Itabira, em Minas Gerais, a terra da primeira mina da Vale. Assim como meus sócios aqui na Ore Investments, minha família trabalha na mineração há gerações. Falo, portanto, do lugar de quem vive do setor.
O Brasil é, ao mesmo tempo, alvo e protagonista nesse movimento. Acordos e memorandos foram assinados com Coreia do Sul, Índia, Espanha e Alemanha, e o acordo União Europeia-Mercosul entra em vigor em maio.
Com território continental e uma rica diversidade mineral em teores e volumes, o Brasil é privilegiado em minerais críticos, como de costume em recursos naturais.
Mas geologia, embora seja o primeiro passo, não é tudo.
Para não perdermos uma oportunidade estruturante para o País, temos que focar nas perguntas certas.
Mesmo contando com algumas das maiores reservas do mundo, o Brasil hoje produz cerca de 0,09% do volume global de minerais críticos.
Em nossa gestora, mapeamos mais de 500 ativos de minerais críticos no País, e apenas cerca de 10% deles são operacionais. Em paralelo, o Brasil conta com quase 30 mil projetos em fase de requerimento de lavra, tentando vencer obstáculos para se tornarem minas operacionais.
A pergunta em que precisamos focar hoje é: como o Brasil constrói um ecossistema que (i) tira projetos do papel dentro de um horizonte de tempo aceitável e (ii) gera verticalização em minerais críticos dentro do país?
Sem essas duas frentes terem sucesso, outras minas serão construídas ao redor do mundo, e boa parte do que são companhias promissoras hoje pode não vir a se tornar operacional nos próximos anos. Além disso, sem verticalização, continuaremos exportadores de minério bruto.
Um estudo recente do Boston Consulting Group aponta que os minerais críticos não se destravam por contratos bilaterais. Na velocidade e na escala em que o mundo precisa, eles serão destravados por uma articulação multilateral que combina governos, investidores, mineradoras, refinarias e clientes, utilizando-se de instrumentos de compartilhamento de riscos, rastreabilidade, bandas de preços e previsibilidade de demanda de longo prazo, entre outros.
O Brasil tem todos os elementos para a construção desse ecossistema: reservas, escala, demanda interna e de potenciais parceiros globais, localização geográfica estratégica, energia limpa e barata, track record de classe mundial em algumas commodities.
Há, porém, três frentes onde os gargalos estão concentrados, e onde boa parte do esforço deveria estar: (i) licenciamento ambiental, (ii) acesso a capital e (iii) verticalização.
Licenciamento ambiental. A S&P Global calcula que a média global do tempo entre descoberta e produção de uma mina supera 17 anos para projetos que entraram em operação entre 2020 e 2023. Quase o dobro do que era 15 anos atrás. A situação do Brasil é agravada pela sobreposição de competências entre União, estados e municípios e pelo risco de judicialização dos licenciamentos.
Sobre judicialização, a companhia e o órgão ambiental passam anos no processo administrativo correto e, na hora da emissão da licença, um terceiro sem o aparato técnico adequado ajuíza uma ação com pedido de liminar, sem ouvir o próprio órgão ambiental e o minerador.
Isso não é zelo ambiental. É insegurança jurídica.
A Lei 15.190/2025 criou prazos máximos e uma Licença Ambiental Especial para projetos estratégicos. É um avanço. Falta a regulamentação prática e — mais difícil — um pacto institucional sobre quem decide o que, a fim de se evitar a judicialização pela judicialização. Não se deseja menos rigor nem atalhos. Apenas previsibilidade. Análise técnica, no prazo, com diálogo amplo e transparência.
Acesso a capital. O agro tem o FIAGRO. A infraestrutura tem o FI-Infra. Falta um FI-Min para a mineração. Outro ângulo são as debêntures incentivadas, com benefício tributário coerente com a importância estratégica do setor. A mineração não tem instrumento financeiro incentivado desenhado para suas características. Sem isso, parte significativa dos investimentos continuará a depender de equity estrangeiro, ou não vai acontecer no tempo certo.
Outro desafio complexo: o project finance, na fase de construção, efetivamente junto a bancos. Faltam ao Brasil instrumentos de colateral mineral, garantias estruturadas e mecanismos de mitigação de risco que viabilizem a tomada de financiamento sem balanço patrimonial que garanta toda a dívida.
Verticalização. Downstream não nasce por decreto. Nasce de importação ou desenvolvimento de tecnologia, logística, energia limpa e barata, demanda ancorada, padronização técnica e capital paciente. Tudo isso com competitividade. Deveríamos buscar o desenvolvimento de dois ou três hubs regionais de minerais críticos, para chegarmos ao refino no Brasil. E a diferença que isso faz é gritante.
Estudo da Deloitte com a AYA Earth Partners aponta que, minerando no ritmo atual, o setor adiciona R$ 47 bilhões ao PIB até 2050; minerando mais e beneficiando localmente, sobe para R$ 233 bilhões; minerando, beneficiando e refinando internamente, chega a R$ 243 bilhões. A diferença entre exportar concentrado e refinar é cinco vezes mais valor agregado para o Brasil. Não é somente mineração: é cadeia de fornecimento verticalizada, competitiva e resiliente.
Uma boa lição sobre como atuar nos minerais críticos vem do Japão e da Coreia do Sul, dois países que não têm geologia tão abundante.
O Japão reduziu a dependência chinesa em terras raras de 90% para menos de 50% em duas décadas — com capital de risco estatal através do JOGMEC, participação acionária em projetos no exterior (incluindo a Lynas Rare Earths), estoque estratégico de até 180 dias e um ecossistema de reciclagem que trata a sucata urbana como mina doméstica. A Coreia roda a mesma cartilha em velocidade maior. POSCO, LG Chem e Samsung SDI estão comprando upstream e travando offtakes em quatro continentes.
Novamente, a lição é sobre a criação de uma arquitetura. É sobre direcionar a discussão e o esforço aos gargalos certos, e atacá-los juntos, de forma coordenada.
E há urgência. O Brasil é privilegiado em recursos minerais, mas não somos os únicos. Há vários projetos com volumes e teores significativos em diversas regiões do mundo, em fase de licenciamento, desenvolvimento e construção, disputando financiamento globalmente.
Em minerais críticos, os volumes da demanda global não são tão grandes, e os mercados não são tão maduros. A volatilidade dos preços é maior, e os ciclos, embora agudos, mais breves. Projetos que se tornarem operacionais mais cedo, com qualidade e competitividade, serão os vencedores de longo prazo, enquanto outros ficarão pelo caminho.
A janela para o Brasil entrar como player confiável de produtos refinados — ou semi-acabados e acabados — de longo prazo em nível global está aberta agora. Não adianta estarmos certos na hora errada.
Ter um ótimo projeto, com geologia de classe mundial, e levar 20 anos para se chegar à produção não é sucesso. Em minerais críticos, chegar tarde é ficar fora do mercado.
Mauro Barros é sócio fundador e CEO da Ore Investments.
