Ao longo das últimas décadas, o Bradesco foi construindo uma coleção de ativos no setor de saúde – de hospitais a laboratórios, passando por sua presença gigantesca nos planos de saúde. E por muito tempo, o mercado criticou o movimento, com analistas e banqueiros vendo “ativos dispersos e sem lógica interna.”
Hoje, a estratégia mostrou seu valor.
Num movimento transformacional, o banco anunciou uma ampla reorganização societária, reunindo todos os seus negócios de saúde numa única plataforma e levando-os para a Bolsa num IPO reverso.
A transação – que evidencia o valor de participações antes opacas – pode melhorar a precificação do banco da Cidade de Deus em meio a um turnaround que começou há dois anos.
A nova empresa – BradSaúde – vai reunir as operações de planos de saúde e odontológicos do Bradesco, os investimentos do grupo no setor de hospitais (em empresas como Atlântica e Grupo Santa) e no segmento de diagnósticos, com a participação no grupo Fleury.
O Bradesco fez um spinoff destes ativos – que estavam sob a Bradesco Seguros – e os contribuiu para a Odontoprev, sua companhia de planos odontológicos listada.

Numa base pro forma e usando números de 2025, a BradSaúde nasce com receita de R$ 52 bilhões, lucro líquido de R$ 3,6 bilhões e ROE de 23,6% – além da liderança do mercado de planos de saúde, com 12% de share.
O chairman do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco – que comandou a seguradora do banco de 2003 a 2009 – disse que a transação cria uma empresa com escala relevante e marcas líderes.
O BTG Pactual estimou que a nova empresa terá um valor de mercado de R$ 38 bilhões, com os minoritários da Odontoprev ficando com 18,6% do capital – o que implica um valuation de 10x o lucro de 2025, metade do múltiplo de Rede D’Or.
“O mercado vai dizer no tempo qual é o múltiplo de acordo com o mix de negócios que a nova empresa reúne,” disse o CEO Marcelo Noronha. Para ele, o negócio pode valer R$ 50 bilhões.
O mercado já mandou o recado no pregão de hoje. A Odontoprev disparou cerca de 25%; a ação do Bradesco sobe 4%.
“Mostramos mais uma vez a riqueza que temos dentro do grupo e nossa capacidade de destravar valor,” disse Noronha.
O Bradesco terá 91,35% da nova empresa, e o free float será de 8,65%, o que abre espaço para operações de follow-on, inclusive para adequar a companhia às regras do Novo Mercado da B3.
“Enxergamos maior flexibilidade para acessar o mercado de capitais e financiar crescimento adicional ao longo do tempo. O movimento destrava muitas oportunidades,” disseram Samuel Alves e Eduardo Rosman, do BTG.
A transação surpreendeu analistas e investidores, que esperavam um IPO dos negócios de seguros do banco (incluindo ramos elementares) em algum momento – mas viram na transação de hoje um caminho mais rápido, mais barato e mais inteligente.
A expectativa é que a nova empresa seja listada em 60 dias, depois das aprovações regulatórias e das assembleias de acionistas.
Para o Bradesco, a transação também deve ser positiva por fortalecer os índices de capital do banco.

Hoje, os ativos de saúde objeto da transação estão marcados no balanço do banco a um valor patrimonial de R$ 15 bilhões. Este valor agora será reavaliado e pode dobrar, o que elevaria o patrimônio de referência do Bradesco.
Com a Odontoprev emitindo 2,4 bilhões de novas ações a R$ 12,85/cada em troca dos ativos, eles agora estariam avaliados em R$ 30,8 bi.
O índice de capital do banco também vai melhorar mais se e quando o Bradesco vender parte de sua participação na BradSaúde para adequá-la ao float mínimo de 20% exigido pelo Novo Mercado, colocando caixa para dentro.
“Além disso, como a nova empresa tende a negociar a múltiplos mais elevados do que o banco, isso criaria uma ‘moeda’ acionária mais forte,” escreveu Rosman.
Nas contas de Pedro Leduc, do Itaú BBA, assumindo que a nova empresa vá negociar em múltiplos de 10x a 12x o lucro para 2026 – acima do valuation de 7,6x do Bradesco –, a transação pode adicionar um valor entre R$ 0,80 e R$ 1,50 por ação.
O Bradesco também tem um volume relevante de ativos fiscais diferidos no balanço que podem ser otimizados, com melhora do patrimônio líquido tangível.
O CEO da BradSaúde será Carlos Marinelli, que chefia os negócios de saúde da Bradesco Seguros desde 2021, depois de 16 anos no Fleury. O CFO será Vinícius Cruz, há 27 anos no grupo. Elsen Carvalho, o atual CEO da Odontoprev, será o head de planos odontológicos.
As demais operações de seguros do Bradesco continuam sob o comando de Ivan Gontijo.
JP Morgan e Bradesco BBI assessoraram o Bradesco.
O Citi assessorou a Odontoprev.
BMA, Mattos Filho e Pinheiro Neto foram os assessores jurídicos.
