O Governo de Minas Gerais revelou o preço mínimo que deseja receber por suas ações da Copasa, dando mais transparência ao processo e abrindo um segundo round para os investidores estratégicos interessados em participar da privatização da empresa.
O valor – até então guardado a sete chaves – é de R$ 47,23 por ação, 7% abaixo do preço de fechamento de ontem, de R$ 50,75, e 20% inferior à máxima histórica do papel em abril, de R$ 60,35.
O processo de desestatização sofreu um soluço ontem, depois que ofertas da Equatorial Energia e de um grupo formado pela Aegea e seus controladores – GIC, Itaúsa e Equipav – vieram abaixo do mínimo.
O valor das propostas recebidas não foi divulgado, mas ficou “muito próximo” do piso desejado pelo Governo, fontes com conhecimento do assunto disseram ao Brazil Journal.

O preço mínimo, secreto, a princípio só seria divulgado após a liquidação da oferta de ações da privatização.
A informação estava restrita a menos de uma dezena de pessoas. A definição do valor ficou a cargo do Comitê de Coordenação e Governança de Estatais – formado pelos secretários da Fazenda, Desenvolvimento Econômico e Planejamento – com posterior aprovação pelo Governador Mateus Simões.
Nem mesmo os bancos que assessoram o processo tinham acesso ao número até a manhã de hoje.
Pelas regras da privatização, o Governo poderia ter seguido adiante mesmo com os lances abaixo do mínimo, vendendo a Copasa de forma totalmente pulverizada no mercado, sem um sócio estratégico.
Mas a falta de um âncora dificultaria a transição da Copasa de estatal para empresa privada, num momento em que a companhia precisa de agilidade e assertividade nas decisões para executar um capex multibilionário ao longo dos próximos anos.
Sem um âncora, havia o temor de que o valor da companhia poderia cair até abaixo do piso pretendido pelo Governo. Ontem, a ação da Copasa chegou a ceder 7% no pior momento do pregão.
“A definição sobre quem é o player estratégico muda o apetite. O mercado vai até precificar diferente, dependendo de quem for,” disse um gestor.
As regras também previam que, se o book com as ordens de mercado também não atingisse o preço mínimo (ainda secreto), a oferta seria cancelada.
O insucesso da primeira rodada de ofertas pela Copasa evidencia os riscos e a complexidade do modelo que tem sido adotado no Brasil para venda de grandes estatais desde a privatização da Eletrobras, em 2022.
Naquela época, com memórias ainda recentes da Operação Lava Jato, e com o Tribunal de Contas da União questionando cada vírgula dos números da transação, a escolha foi por desestatizar a elétrica via uma oferta pública de ações em bolsa, mas com o Governo definindo um preço mínimo secreto para os papéis.
Um desenho similar foi usado na privatização da Sabesp, com a exigência de um “investidor de referência” agora repetida na Copasa.
Evidenciando o dilema do Poder Público na definição do preço mínimo, a Equatorial fez uma oferta acima do piso definido pelo Governo de SP, mas que ficou abaixo do valor das ações na bolsa na época.
O deságio na comparação com o preço de tela dos papéis deu palanque para políticos de oposição, que chegaram a acionar o Tribunal de Contas do Estado e o Ministério Público contra a transação.
Nos três casos – Eletrobras, Sabesp e Copasa – a definição do valor justo das companhias ganha uma complexidade adicional porque o mercado tende a antecipar os ganhos da empresa com a privatização, levando o preço em Bolsa a patamares que podem não fazer sentido para um sócio estratégico.
Na Eletrobras, a modelagem não previa um investidor de referência, mas a canadense CPPIB e o GIC de Cingapura chegaram a avaliar ancorar a oferta e acabaram ficando de fora quando o mercado puxou o preço para cima. Na Copasa e Sabesp, o sócio estratégico tem obrigações incluindo um lock-up dos papéis.
Na prática, o Governo fica entre a cruz e a espada: se o valor mínimo é visto como baixo, corre o risco de ser chamado de “entreguista” e virar alvo de processos; e, se é muito alto, dificulta a venda ou até inviabiliza o processo.
No caso da Copasa, por exemplo, as ações valorizaram mais de 100% nos últimos 12 meses com a euforia gerada pelo processo de privatização.
O investidor de referência da Copasa deverá se comprometer a comprar 30% da empresa e terá um lock-up de 100% das ações por quatro anos e de 50% até 2033, ou até a universalização do serviço.
Os bancos coordenando a oferta são BTG Pactual, Itaú BBA, Bank of America, Citigroup e UBS BB.