Os carros elétricos da BYD caíram no gosto do brasileiro.
No ano passado, a montadora chinesa acelerou suas importações para o País enquanto construía sua planta em Camaçari. Como resultado, ficou na sétima posição no ranking do setor automotivo, com 5,6% de share.
Mas em janeiro e fevereiro, mesmo com o fim da isenção de imposto para carros elétricos importados, a BYD deu um salto ainda maior: ultrapassou a Toyota e a Jeep, e já é a quinta montadora que mais vende no País.

Esses números não foram conquistados sem polêmicas – e sem a chiadeira dos concorrentes. Entre as reclamações estão acusações de dumping e até mesmo de trabalho análogo à escravidão de funcionários chineses na construção da planta da Bahia.
Stella Li, a vice-presidente global da BYD e a todo-poderosa da montadora fora da China, não se incomoda com essas acusações.
“Isso acontece porque somos uma empresa forte e bem-sucedida. Quando você cresce rapidamente, muitas pessoas tentam pressionar ou tirar vantagem,” Stella disse ao Brazil Journal.
Para ela, o maior incômodo do mercado é o fato das rivais da BYD não conseguirem competir com as tecnologias mais avançadas da empresa.
Stella – a primeira mulher escolhida como ‘personalidade do ano’ pelo World Car of the Year, o maior prêmio do setor – define a BYD como “a Apple da indústria automotiva” e diz que os consumidores estão percebendo esse valor.
Segundo ela, boa parte das reclamações deve acabar com o início da produção completa dos carros em Camaçari no início do segundo semestre. (Desde o ano passado, a BYD apenas monta os carros que vêm semi-desmontados para o Brasil).
A despeito das dúvidas sobre a força do carro elétrico frente aos híbridos, a executiva acredita que tudo vai mudar com a mais nova tecnologia da companhia: o Flash Charging.
O sistema consegue carregar a bateria de 10% para 70% em cerca de cinco minutos e de 10% para aproximadamente 97% em cerca de nove minutos, praticamente uma carga completa.
Hoje essa tecnologia já está presente nos modelos mais avançados da BYD, e deve ser expandida para outros veículos nos próximos anos.
A empresa anunciou que vai instalar até 1.000 carregadores desse porte no Brasil até o final de 2027.
“O tempo de recarga está se tornando tão rápido quanto abastecer um carro a gasolina. Com a tecnologia de carregamento ultrarrápido, acredito que os veículos totalmente elétricos terão uma grande vantagem,” disse ela.
Confira os principais trechos da entrevista.
A BYD e o setor automotivo têm crescido mesmo em um cenário de juros altos. Por quê?
A BYD está indo muito bem no Brasil porque somos uma empresa de tecnologia verde, e os consumidores gostam e valorizam a tecnologia que oferecemos.
Estamos no mercado brasileiro há cerca de quatro anos e já vemos algo interessante: nossos carros usados têm um valor de revenda muito forte.
Muitas vezes eles são vendidos com preços melhores do que os de outras marcas. Isso acontece porque nossa tecnologia é robusta e os carros se mantêm em boas condições.
Como você vê a concorrência no Brasil? Muitas montadoras chinesas também estão investindo aqui, como a Geely – que tem incomodado vocês na China.
Na verdade, nós não vemos isso como uma competição direta. Muitas empresas que chegam ao mercado brasileiro focam principalmente em preço baixo. Já a BYD foca em tecnologia e em entregar mais valor para o consumidor.
Por isso, na prática, quase ninguém consegue competir diretamente conosco. Talvez exista competição em um ou dois modelos específicos, mas ainda assim a BYD já construiu um valor muito forte em torno da marca e da tecnologia. As pessoas confiam no nosso serviço e na nossa tecnologia e a nossa próxima aposta é o Flash Charging.
A BYD enfrentou acusações no Brasil, incluindo dumping e questões trabalhistas. Como você lida com essas questões?
Isso acontece porque somos uma empresa forte e bem-sucedida. Quando você cresce rapidamente, muitas pessoas tentam pressionar ou tirar vantagem.
Mas nós focamos em cuidar bem dos consumidores e em responder às preocupações deles. É assim que conquistamos o apoio do mercado.
Mas há uma pressão muito grande de montadoras concorrentes para que vocês se adequem ao mercado nacional.
Às vezes também existe um componente político por trás dessas acusações, porque algumas pessoas querem atacar empresas chinesas ou atacar o nosso sucesso.
Mesmo quando algumas críticas não são totalmente precisas, assumimos responsabilidade. Trabalhamos com nossos fornecedores e parceiros para garantir que todos sigam os padrões corretos.
Se surgir algum problema, queremos resolvê-lo. Trabalhamos com nossas equipes e parceiros para melhorar continuamente e até ir além do necessário para mostrar que estamos comprometidos.
Você acredita que essa percepção vai mudar quando a produção local começar de fato no Brasil?
Já está mudando. No início havia muitas dúvidas e suspeitas porque as pessoas ainda não entendiam bem a empresa. Quando nos tornarmos efetivamente um fabricante local, isso vai nos tornar ainda mais sólidos no país. As pessoas passam a confiar mais quando veem que a empresa tem uma visão de longo prazo no mercado.
Além disso, quando produzimos localmente, não precisamos nos preocupar com tarifas de importação. Queremos realmente nos tornar uma marca local e uma empresa local no Brasil. Isso fortalece muito a nossa reputação.
E como você está enxergando a concorrência global?
Hoje existe uma percepção interessante no mercado: a BYD é vista mais como uma Apple da indústria automotiva, e não apenas como uma empresa chinesa. O carro não é apenas um carro — ele é um produto tecnológico.
A BYD criou o próprio ecossistema e entrega muito valor em tecnologia e inovação. Isso é algo que os consumidores percebem. Nosso slogan inclusive reflete isso: a BYD não é apenas um carro, é tecnologia.
Ao mesmo tempo, a BYD está tendo quedas recorrentes no lucro. Por quanto tempo vocês podem priorizar crescimento em vez de lucratividade?
Com todas as novas tecnologias que estamos introduzindo e com o crescimento das vendas, acreditamos que a lucratividade vai aumentar rapidamente.
Por exemplo?
O Flash Charging é um divisor de águas e uma revolução na indústria automotiva. A BYD é uma das poucas empresas que produzem baterias internamente e hoje é um dos maiores fabricantes de baterias do mundo, dominando praticamente toda essa tecnologia.
Esse nível de tecnologia ainda não tem equivalente no mercado. Hoje ela está nos nossos modelos mais avançados no exterior, mas nos próximos anos começaremos a implementá-la gradualmente em mais modelos da BYD.
Na sua visão, o futuro da mobilidade será totalmente elétrico ou híbrido?
Com a tecnologia de carregamento ultrarrápido, acredito que os veículos totalmente elétricos terão uma grande vantagem. O tempo de recarga está se tornando tão rápido quanto abastecer um carro a gasolina, e a BYD também está investindo muito em infraestrutura de carregamento.
