Irã muda o viés no petróleo, mas choque pode ser momentâneo


Os ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã no fim de semana colocaram em xeque não só o regime dos aiatolás, mas também as projeções de boa parte do mercado de petróleo.

À medida que o Brent disparava com as notícias do Oriente Médio, diversos analistas começaram a projetar que o barril pode passar dos US$ 100 a depender dos próximos acontecimentos.

Trata-se de uma mudança de 180 graus. Nos últimos meses, a narrativa sobre a commodity era predominantemente bearish, com diversas projeções apontando o risco de um barril na casa dos US$ 50, devido aos temores de sobreoferta.

Hoje, o Brent chegou a subir mais de 10% na abertura, ultrapassando os US$ 80 – um nível não previsto nem pelos mais altistas no setor – mas fechou a US$ 77,74, uma alta de 6,7%.

Embora muitos ainda questionem se o choque nos preços veio para ficar ou se é momentâneo, bancos e corretoras já apontam a PRIO e a Petrobras como os nomes que mais podem se beneficiar desta nova conjuntura. 

As duas, inclusive, lideraram altas do Ibovespa nesta segunda-feira. A PRIO fechou a R$ 57,28, subindo 5%, enquanto a Petrobras avançou 4,6% para R$ 44,71.

O sentimento do mercado passou de “preços mais baixos por mais tempo” para uma visão de prêmio de risco ascendente, disse o JP Morgan. “Apesar de interrupções de produção ou em infraestruturas de exportação ainda não terem se confirmado, os preços devem se manter acima de nosso cenário-base, enquanto a volatilidade seguirá elevada.”

Além da situação no Irã após os ataques que mataram o aiatolá Ali Khamenei e outros líderes do país, analistas monitoram as retaliações contra alvos em todo o Oriente Médio.

No Catar, a maior planta de gás natural liquefeito do mundo, da QatarEnergy, paralisou a produção após ter sido atingida, fazendo o preço do gás natural saltar 50% na Europa pela manhã, antes de fechar o dia em alta de 35%.  

O BTG alertou que “dessa vez pode ser diferente”, com impactos bem maiores que na recente invasão da Venezuela pelos EUA.

“A escalada geopolítica no Oriente Médio […] representa um ponto de inflexão material para os mercados globais de energia,” disse o banco. 

Todos os olhos agora estão no Estreito de Ormuz, na costa iraniana, por onde trafega cerca de um terço das exportações globais de petróleo. 

No domingo, o Irã atacou um navio-tanque nessa passagem chave, e agora diversas empresas estão evitando a rota, elevando os custos de frete. 

“Mesmo sem uma interrupção real, um alerta do Irã de que o tráfego não será permitido pode fazer empresas evitarem tomar o risco, apoiando ainda mais o prêmio geopolítico e os preços do petróleo,” disse o UBS.

10108 758bd999 9090 00d0 0000 96a1aedf939d

Por outro lado, uma alta prolongada da commodity não interessa aos EUA pelo impacto inflacionário, e Trump tem afirmado que a guerra não durará mais que quatro semanas, o que poderia ajudar a ancorar expectativas e segurar altas no Brent, disse o Bradesco BBI.

“Em geral, tomar uma exposição adicional ao setor por causa de uma guerra que pode durar não mais que uma semana seria um movimento de risco, em nossa visão,” alertaram os analistas.

Se infraestruturas de petróleo ou Ormuz forem alvo, seria “o pior cenário,” mas os preços podem se moderar em algumas semanas ou até dias caso o mercado se convença de que isso não vai acontecer, disse o Scotiabank. 

“Achamos que pode ser útil comparar a atual dinâmica do mercado com as duas últimas guerras do Golfo, em 1990-1991 e 2003,” escreveu o banco, citando fortes altas do Brent antes dos conflitos no Iraque, seguidas por quedas abruptas nos preços. 

Na prática, ninguém sabe nada e tudo pode acontecer.

“A escalada no Irã efetivamente abriu uma caixa de Pandora,” escreveram os analistas da XP. “A situação agora se assemelha a um sistema caótico – tanto literalmente quanto no sentido matemático, de um sistema capaz de evoluir por caminhos altamente divergentes, tornando-o praticamente impossível de prever.” 

Do lado dos fundamentos, o cenário ainda aponta para uma sobreoferta de petróleo à frente, e é difícil que o Irã consiga sustentar um conflito prolongado contra os EUA ou o fechamento do Estreito de Ormuz, disse um gestor que acompanha o setor. 

“É só uma questão temporária… acho que não tem nada acontecendo de realmente disruptivo no médio prazo,” afirmou. 




Luciano Costa






Source link

Leave a Reply

Translate »
Share via
Copy link