Perícia pede mais informações antes de opinião sobre RJ da Fictor


A Laspro Consultores quer informações mais detalhadas do Grupo Fictor – que tentou comprar o Banco Master – antes de concluir a verificação prévia de suas condições de funcionamento e dar sua opinião sobre a viabilidade de uma recuperação judicial. 

Duas empresas do grupo – a Fictor Holding e a Fictor Invest – pediram recuperação judicial no início do mês, deixando de fora do processo as outras unidades do conglomerado que atuam nos setores de alimentos, energia, infraestrutura, serviços financeiros e real estate. A alegação é que é preciso preservar as operações dessas subsidiárias, consideradas essenciais para o funcionamento do “ecossistema empresarial denominado Grupo Fictor”.  

Assessorada pelo DASA Advogados, de Carlos Deneszczuk, a Fictor alega que a Holding e a Invest sofreram “abalo reputacional súbito e relevante” após a oferta pelo Master e a liquidação do banco. Isso gerou uma crise de confiança e pedidos de resgate de investidores da ordem de R$ 3 bilhões.  As duas empresas falam numa dívida de R$ 4,25 bilhões, com mais de 13 mil credores, sendo cerca de 11 mil pessoas físicas. 

A Fictor captava recursos por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs) – contratos privados de investimento, previstos no código civil, que costumam ser utilizados em negócios entre family and friends e não são fiscalizados pela CVM.

Esses contratos atraíram investidores, aparentemente bastante além de family and friends, oferecendo retornos próximos a 2% ao mês. Segundo a Fictor, os recursos captados “seriam destinados principalmente ao financiamento da operação de comercialização de grãos”, que foi encerrada por conta do impacto reputacional pós-Master.

Ao mesmo tempo em que a empresa pediu RJ, um grupo de investidores foi à Justiça alegar que existe confusão patrimonial na Fictor,  pedindo a análise da viabilidade econômica do grupo que, no entender dos investidores, pode ser uma “pirâmide financeira”. Os investidores querem que todas as empresas sejam incluídas na RJ.

Por conta disso, antes de decidir se aceita ou não o pedido de recuperação judicial, a Justiça de São Paulo concedeu um stay period de 30 dias e solicitou a verificação prévia das condições de funcionamento da Fictor.

No relatório inicial, a Laspro destacou que o ativo total da Fictor Holding, de R$ 4,07 bilhões, é composto principalmente pelas rubricas “outros créditos de longo prazo”, que somam R$ 935 milhões (23% do total); e “outras contas a receber”, com saldo de R$ 692 milhões ou 17% do ativo total.

No passivo total da holding, que é de R$ 3,3 bilhões, as maiores contas são “partes relacionadas”, de R$ 1,8 bilhão (53% do total) e “empréstimos e financiamentos”, no valor de R$ 1,3 bi (40% do total). Na Fictor Invest, o ativo total é de R$ 2,8 bilhões, sendo que R$ 1 bi (36% do total) são referentes a “investimentos” e R$ 1,8 bilhão a mútuos (64% do total). 

A perícia visitou 15 subsidiárias do grupo – em São Paulo, Rio, Minas, Goiás e Amazonas. Em sete delas, não encontrou nenhuma atividade em funcionamento; em três não foi autorizada a entrar para fazer a verificação. 

A Laspro diz em relatório que precisa de novos documentos que forneçam maior “transparência à estrutura econômico-financeira do Grupo”.

Pediu a abertura da contabilidade de todas as empresas e informações sobre o relacionamento entre elas, com detalhes sobre o fluxo de recursos: discriminação da origem dos valores, periodicidade das transferências e finalidade. Também solicitou uma lista de credores segregada por empresas, uma relação de ativos alienados e/ou liquidados nos últimos 24 meses e a destinação dos recursos; e a relação de garantias cruzadas. 

A consultoria também pediu um mapa detalhado das transações via SCPs desde o início da captação de recursos, com a identificação dos valores aportados, utilização dos recursos, prestação de contas dos investimentos realizados, dividendos pagos, resgates e saldos pendentes. 

Também quer a natureza e o destino das saídas de caixa da conta centralizadora do grupo.

No dia 4 de fevereiro, a Polícia Federal abriu um inquérito para investigar o Grupo Fictor por possíveis crimes contra o sistema financeiro nacional:  gestão fraudulenta; apropriação indébita financeira; emissão de títulos sem lastro, equiparados a valor mobiliário; e por operar instituição financeira sem autorização.

A notícia de que a Fictor – ao lado de investidores árabes não identificados – compraria o Master surpreendeu o mercado, que desconhecia a empresa. A Fictor começou a ganhar alguma visibilidade através do seu braço de alimentos, com um IPO reverso em 2024 e o patrocínio ao Palmeiras em 2025. 

A Fictor começou em 2007, inicialmente atuando em BPO e tecnologia. Em 2018 entrou no agronegócio.




Ana Paula Ragazzi






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