A Petrobras acusou hoje as distribuidoras de combustível de se aproveitarem da guerra no Irã para aumentar preços e engordar margens, ecoando recentes ataques de membros do Governo ao setor.
O discurso duro, no entanto, bate de frente com a prática da própria Petrobras, que está vendendo parte da produção de suas refinarias com ágio sobre o preço “oficial”, a valores próximos do mercado internacional.
Para conseguir fazer esses leilões, obtendo cotações melhores, a Petrobras está entregando às distribuidoras volumes no range inferior das cotas de fornecimento acordadas com cada cliente, fazendo uso de uma flexibilidade prevista nos contratos.

Um pregão na quarta-feira, por exemplo, vendeu o litro de diesel a R$1,80 acima do preço de tabela divulgado ao público. Hoje e na segunda-feira, serão leiloados mais 240 mil metros cúbicos de diesel e 95 mil m³ de gasolina.
Comprando parte do suprimento a preços mais altos, as distribuidoras repassam os valores nos postos – enquanto sofrem ataques de sua fornecedora e de autoridades, incluindo o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira.
Com a disparada do preço do petróleo depois do conflito no Oriente Médio, o diesel subiu quase 9% nas bombas na média nacional só na semana passada, e a gasolina 2%, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT) realizado a partir de notas fiscais eletrônicas.
Mas ao falar com jornalistas hoje, a CEO da Petrobras, Magda Chambriard, isentou a companhia de qualquer responsabilidade.
“Estamos nos esforçando para entregar mais produto para o mercado brasileiro e superando as cotas acordadas no início do ano. Então, em relação a nós, acho que não cabe reclamação, não. Só cabe elogios. Estamos aceitando elogio, por telefone ou escrito.”
Ela também repetiu afirmações feitas esta semana pelo ministro Silveira e pelo chefe da Casa Civil, Rui Costa, que lamentaram a privatização da antiga BR Distribuidora (hoje Vibra Energia) no Governo Bolsonaro, e disse que a Petrobras não tem mais poder de “influenciar preço” no varejo.

“Hoje todos os postos com o logo da Petrobras pertencem à Vibra. Que onera (o combustível), junto com todos os outros (distribuidores), muitas vezes especulativamente, aumentando a margem”, disse Magda.
“Em um momento de alta volatilidade, no Brasil, os agentes econômicos infelizmente se aproveitam.”
(Pelo jeito, os fornecedores também.)
Magda voltou a fustigar o varejo de combustíveis ao questionar as notícias de que estaria faltando diesel em algumas regiões.
“Como que está faltando produto se nós entregamos? Podemos supor que não é falta, é retenção de produto, especulando para aumentar margem.”
Enquanto isentava a Petrobras pela alta nos postos, a CEO anunciava um reajuste de 11% no preço do diesel nas refinarias da estatal, ou R$ 0,38 por litro.
O anúncio ocorreu menos de 24 horas após o Governo aprovar uma Medida Provisória reduzindo 99% do PIS Cofins do diesel — um subsídio de R$ 0,32 por litro, válido até dezembro. Além disso, para quem produz ou importa diesel no Brasil, o Governo vai dar uma subvenção de mais R$ 0,32.
“Nós estamos aumentando em R$ 0,38/litro e teremos ressarcimento de R$ 0,32. Então temos potencial ganho de R$ 0,70. E o consumidor final vai pagar a mais, por litro, R$ 0,06, um acréscimo irrisório,” disse Magda.
O subsídio, que veio junto com isenção de impostos federais, será bancado com um imposto de 12% sobre exportações de petróleo. A própria Petrobras será afetada, mas a CEO minimizou o impacto.
“O petróleo chegou a US$ 59 por barril, e agora foi para US$ 100. É um cenário de guerra. Não posso reclamar.”
Sem reclamar do Governo, e focando as críticas nas distribuidoras, Magda ainda disse que cabe às autoridades fiscalizar o varejo de combustíveis.
