O negócio de ‘special situations’ está se tornando cada vez mais relevante para o BTG Pactual, representando cerca de um terço do resultado do banco.
Quem fez as contas foi o JP Morgan.
Num relatório publicado hoje, o analista Yuri Fernandes nota que boa parte do resultado da área vem dos chamados créditos do FCVS, uma dívida que o Tesouro Nacional tem com alguns bancos e que remonta aos anos 90.
O banco de André Esteves passou a ter direito a esses créditos ao comprar bancos quebrados como o Nacional, Besa e Sistema, que são os credores originais desses ativos. Essas aquisições são feitas pela área de ‘special sits’ do banco, e frequentemente exigem interlocução com o Banco Central e o envolvimento pessoal de Esteves.
Nas contas do JP, só os créditos do FCVS podem ter gerado de R$ 1 bilhão a R$ 1,5 bilhão em receitas para o BTG no ano passado.
Para este ano, o time do JP Morgan estima que o BTG ainda tenha de R$ 800 milhões a R$ 1,4 bilhão a receber desses créditos.
“Na nossa visão, esses ganhos podem explicar parte do aumento de 40 basis points no yield do corporate lending no período entre 2022 e 2025,” escreveram os analistas.
“Ainda que esses casos sejam de certa forma únicos, e que o FCVS deva acabar em breve, o BTG tem construído um forte track record em tornar ganhos não-recorrentes em ganhos recorrentes.”
No relatório, o JP reconhece que sua estimativa para a receita do segmento de ‘special sits’ não é perfeita.
Segundo a divulgação por subsidiária, os bancos Nacional, Econômico e Sistema representaram um terço dos resultados do BTG no quarto tri, com o Banco Nacional sozinho respondendo por cerca de 26%.
“No entanto, não achamos que seja totalmente justo olhar para o desdobramento contábil, pois pode haver alguma alocação de lucros nessas subsidiárias devido a vantagens fiscais,” escreveram os analistas.
“Não é uma métrica perfeita, mas, direcionalmente, acreditamos que esse segmento está se tornando cada vez mais material para o BTG.”
Basicamente, os créditos FCVS são recebíveis devidos pelo Tesouro a bancos credores, que foram originados nas décadas de 60 a 90 de hipotecas residenciais com saldos residuais devido a descasamentos de indexação (salário versus inflação).
No balanço dos bancos, esses créditos estão reconhecidos com um desconto em relação ao valor de face por conta dos riscos sobre o pagamento.
Esses créditos geram receita para o BTG de três formas: o saldo é corrigido a cerca de 6% ao ano; há ajustes na marcação a mercado quando os pagamentos diferem do valor original registrado; e eles podem gerar também reversões de provisões.
Segundo o JP Morgan, as aquisições do Nacional, Besa e Sistema trouxeram R$ 14 bilhões em créditos FCVS para o balanço do BTG.
Desse total, os analistas estimam que o BTG ainda carregue cerca de R$ 4 bilhões.
“Esperamos que os acordos do FCVS sejam concluídos pelo Tesouro até o final de 2026. Portanto, vemos a maior parte dessa receita sendo reconhecida ainda neste ano,” escreveram os analistas.
Para estimar quanto o BTG ainda poderia gerar de receita com esses créditos, o JP simulou dois cenários. O primeiro, considerando receitas de juros e marcação a mercado, seria uma conversão de 27% do total, ou R$ 1,1 bi. O segundo, que considera também reversão de provisões, seria de uma conversão de 45%, o que daria R$ 1,8 bi.
“Mas há duas ressalvas. Não temos os dados do Banco Central para o quarto tri, e parte disso pode já ter sido reconhecida, especialmente considerando os fortes resultados do Nacional no trimestre,” escreveram os analistas.
“Se excluirmos proporcionalmente um de cinco trimestres (ou seja, o quarto tri dentro da janela do 4T25 a 4T26), o EBT futuro ajustado a ser reconhecido seria de R$ 800 milhões a R$ 1,4 bilhão em 2026.”
