A ação do Citi subiu 70% em 12 meses e quase 180% em três anos – bem acima do S&P500 e dos principais concorrentes – com o mercado reconhecendo os resultados da reestruturação comandada pela CEO Jane Fraser.
Nos últimos quatro anos, o banco vendeu negócios, reorganizou áreas, simplificou a estrutura e elevou o retorno sobre capital tangível (RoTCE, a principal métrica no mercado americano) para 8,8% em 2025, frente aos 7% do ano anterior e 4,9% em 2023.

Ainda assim, está abaixo de peers como JP Morgan, Bank of America e Wells Fargo, que entregaram retornos superiores a 14% em 2025 – com o JP rodando em torno de 20% nos últimos três anos.
Apesar da alta recente, a ação, a cerca de US$ 125, ainda está distante dos US$ 550 atingidos antes da crise de 2008 – e mais barata que a dos concorrentes.
O CFO Gonzalo Luchetti diz saber que o Citi “tem algo a provar”, mas que agora, passada a fase da reorganização interna, o banco pode focar em crescer, ganhar mercado e atingir o guidance de 14% a 15% de RoTCE até 2031.
“Estávamos jogando na defesa. Tínhamos de nos concentrar na reorganização interna. Mas agora acho que está claro que estamos jogando no ataque,” Luchetti disse ao Brazil Journal. “Espero que nossos concorrentes estejam mais assustados conosco.”
O argentino assumiu como CFO em março, depois de 20 anos comandando negócios do Citi em diferentes países: foi head de wealth management & insurance, head de consumer bank na Ásia e em mercados emergentes e, de 2021 a 2026, chefiou o personal banking nos EUA, com 70 milhões de clientes.
Para os analistas que acompanham o banco, sua escolha como CFO é sinal de que o Citi busca alguém que conheça o negócio para apoiar a expansão da franquia.

A seguir, os principais trechos da conversa.
O que falta para o Citi chegar a um RoTCE de 15%?
Estamos trabalhando em duas etapas. No ano passado, nosso retorno foi de 8,8% excluindo itens extraordinários. Então esse é o ponto de partida.
Tivemos uma melhora no primeiro trimestre de 2026, quando o RoTCE chegou a 13,1%. Mas isso não mudou nossa projeção de atingir um patamar de 11% a 12% no curto prazo, que é a fase 1.
A fase 2 prevê um retorno de 14% a 15% entre 2029 a 2031. O caminho para chegar a isso passa por três avenidas principais: crescimento da receita, ganhos de eficiência e produtividade do capital.
Nenhuma delas acontece de repente virando uma chave. É preciso construir engajamento com o cliente e fortalecer a franquia em todo o mundo.
Com isso, podemos diminuir a distância para os nossos pares. Estamos cientes da nossa jornada: passamos os últimos quatro anos reorganizando a empresa. Nossa próxima fase é de crescimento, e ele virá com o tempo.
Ok, mas enquanto isso, os concorrentes têm seus próprios planos de crescimento. Quais assustam mais: os incumbentes ou os bancos digitais?
Não estamos assustados com eles. Espero que nossos concorrentes estejam mais assustados conosco, porque estamos melhorando.
Talvez no passado não fôssemos tão valorizados porque estávamos jogando na defesa. Tínhamos de nos concentrar na reorganização interna. Mas agora acho que está claro que estamos jogando no ataque.
Sabemos que temos algo a provar e vamos entregar. Fazemos isso com humildade, mas também com muito foco e intensidade.
O que o Citi tem que outros bancos não têm? Em resumo, quais são os verdadeiros diferenciais do banco?
Presença global e cultura. Ser um banco global de verdade, com presença em 94 países, nos torna resilientes – especialmente em um ambiente com tanta instabilidade.
Se uma empresa precisa mudar sua cadeia de suprimentos, o Citi pode apoiar de forma ágil e efetiva. Não basta mandar um executivo para um novo país, é preciso conhecer o ambiente de negócios.
Os clientes apreciam isso porque permite que eles se reposicionem.
Não é fácil para nenhum banco – mesmo para os robustos, como o JP Morgan – estar presente em 94 países e ter a mesma profundidade de rede em todos eles. Não é algo fácil de replicar.
Cultura não era uma vantagem para nós, mas acho que agora é. Como eu disse, temos algo a provar. Somos desafiantes e, por isso, tentamos trabalhar mais duro do que os outros – o que, esperamos, nos torna mais perigosos, no bom sentido.
As ações subiram bastante recentemente, mas ainda estão abaixo do nível pré-crise de 2008. O que falta para o mercado realmente comprar a história do Citi?
Como a Jane já disse, a ação ainda está barata. Os analistas veem credibilidade na nossa história: 85% dos que cobrem o papel têm recomendação de compra e os demais estão neutros.
Há quatro anos, tínhamos algo a provar. Estamos trabalhando para construir nossa credibilidade e a confiança do mercado, e estamos em uma situação melhor agora.
O consenso de mercado indica que vamos atingir o topo do nosso guidance de retorno para este ano, que é de 10% a 11%. Isso mostra que há confiança no mercado de que faremos o que dizemos que vamos fazer.
No ano passado, passamos a negociar acima do book value pela primeira vez em muito tempo. Hoje, estamos em 1,28x book value, ainda abaixo de concorrentes – 2,7x é o mais alto, do JP Morgan.
Quando chegarmos mais perto de 15% de retorno, no médio prazo, seremos capazes de fechar esse gap de valuation também. Nossa palavra é uma promessa.
Qual é sua visão para a inflação nos EUA e os impactos sobre juros e inadimplência?
Ainda estamos observando se os impactos de eventos como o do Oriente Médio serão pontuais ou duradouros.
Também é preciso considerar que os efeitos não serão uniformes. Pensando na dependência de petróleo proveniente do Oriente Médio, o Brasil está em uma ótima posição, porque é exportador líquido. Isso também é verdade para os EUA e Canadá.
As Américas, em geral, estão em uma posição melhor em relação à Europa na dependência de gás e à Ásia, na dependência de petróleo.
Sobre inadimplência, de forma geral, o consumidor dos EUA tem sido muito resiliente nos últimos anos. O excepcionalismo americano tem muito a ver com o comportamento do consumidor, que continua comprando com disciplina financeira.
Nosso resultado do primeiro trimestre é um bom exemplo. As compras no cartão de crédito cresceram entre 5% e 6%, e a inadimplência caiu. Não significa que vai durar para sempre, mas é o que vemos por enquanto.
Monitoramos o desemprego, que pode elevar a inadimplência – mas, por enquanto, a taxa está equilibrada. Também estamos de olho na inflação, que poderia reduzir o poder de compra. Até agora, porém, os sinais são positivos.
Qual é o potencial da inteligência artificial no Citi?
Estamos adotando uma abordagem dupla. Uma delas tem o objetivo de tornar os funcionários mais produtivos. É um pouco como nos anos 80 ou 90, quando o computador pessoal deixou todo mundo mais produtivo.
Estamos democratizando o acesso à AI dentro da empresa de forma segura, treinando equipes, criando metas de adoção – o que ajuda as pessoas a se preparar para um mundo diferente.
Queremos capturar os grandes e pequenos benefícios. Cada uma das 239 mil pessoas que trabalham no Citi pode ter uma função muito específica: para extrair de fato os ganhos de produtividade, é preciso que todos saibam usar as ferramentas para seu benefício.
Mas a AI também pode melhorar a experiência do cliente. Lançamos recentemente uma ferramenta que transcreve chamadas telefônicas em tempo real para nossos atendentes.
Se a chamada não está tão clara porque o cliente está em um celular, por exemplo, o atendente não precisa pedir para repetir. O cliente não fica irritado, resolve seu problema e de forma mais ágil – uma chamada mais curta economiza dinheiro.
Além disso, em defesas cibernéticas, a AI é super relevante, porque pode ser mais rápida e inteligente que os melhores hackers do mundo e antecipar as ameaças.